O desenvolvimento
neuropsicomotor do Nicholas, meu filho, sempre fugiu do padrão de crianças
“normais”. Por outro lado, o desenvolvimento físico dele segue à risca, aquela
linha ideal do gráfico de crescimento. Ele nunca teve qualquer problema de
saúde grave, apenas um ou outro resfriadinho. Mas, algumas coisas sempre
chamaram a minha atenção (e de meu marido, claro): com seis meses, o Nick ainda
não dava tchauzinho, nem falava papai, mamãe, vovó, au-au, etc. Mesmo assim, o
pediatra do Nicholas achou eu deveríamos esperar mais tempo –afinal de contas,
existem crianças que demoram para falar mesmo.
Com um pouco mais de
um ano de idade, o Nick começou a fazer uns movimentos estranhos, especialmente
antes de dormir: de quatro, ele se movia para frente e para trás,
freneticamente, até pingar de suor e, até finalmente pegar no sono. Assim que
percebi esse comportamento no meu filho, conversei com o pediatra (lembro-me
que liguei para ele no celular, já tarde da noite) e surgiu a suspeita de
autismo. Naquela mesma semana, eu e meu marido levamos nosso filho em uma
neuropediatra que, nos disse com a maior convicção que nosso filho não era
autista, e que deveríamos colocá-lo em uma escolinha.
Mas eu sentia que não
ia ser bom para ele porque de alguma maneira, algo me dizia que aquele não era
o momento. Além disso, outros fatores contribuíram para que não o colocássemos
na escola: estávamos morando em Sorocaba e lá, as escolas públicas, na minha
opinião, são muito despreparadas e as particulares tinham mensalidades
completamente fora de nossas possibilidades. Assim, apesar de muita gente me
dizer que eu precisava trabalhar, que tudo ficaria mais fácil para mim, se eu
matriculasse o Nick em uma escolinha (creche), de vivermos pedindo dinheiro
emprestado para os parentes, e de ter me endividado com empréstimos bancários
para poder pagar as contas, eu resolvi que não iria colocá-lo na creche ainda.
No final de 2012,
quando o Nick tinha cerca de 2 anos e meio, levei-o ao pediatra, como fazia
todos os meses e, para a minha surpresa, ele se mostrou espantado com o fato do
Nicholas ainda não ser capaz de falar e nem de entender absolutamente nada, nem
ao menos o seu próprio nome. Então, o pediatra disse que havia grande
possibilidade do Nick ser autista, e que deveríamos levá-lo em uma psicóloga e
uma fonoaudióloga. Nisso, entraram as férias de final de ano e, eu e meu marido
ficamos de dezembro até fevereiro de 2013 pensando e sentindo um turbilhão de
coisas –afinal de contas, nosso filho poderia ter autismo. AUTISMO. Essa
palavra me enchia de pavor!
“O que é o autismo?” “
O que significa, para a vida de meu filho, o fato dele ter autismo?” “O que
vamos fazer?” “ Mas ele vai ser normal? E se ele não for?” “ O que vai ser dele
quando eu e meu marido não estivermos mais aqui para cuidar dele?” “ Coitado do
meu filho!” “ Por que isso foi acontecer com a gente?”. Todas essas perguntas
giravam na minha cabeça, até o ponto que achei que fosse ter um treco. Para
mim, esses pensamentos duraram umas 2 semanas. Meu marido, que é muito mais
sensível e que havia perdido sua mãe havia alguns meses, o baque foi muito
pior: ele entrou em depressão e não conseguia mais trabalhar. Assim, nossa
situação financeira piorou, ao ponto de não podermos sequer pagar o aluguel.
Eu me sentia
completamente impotente: não podia trabalhar, era incapaz de ajudar meu marido
com a depressão, e lutava diariamente com meus pensamentos negativos. Até que
algo dentro de mim disse “ CHEGA”. “ Nada irá melhorar desse jeito!” . “Tem um
monte de coisas que eu gostaria de fazer e não posso...mas o que eu POSSO
fazer?”; “Se meu filho tiver autismo, e seja lá o que isso signifique, não
importa, porque eu o amo de qualquer jeito! E vou fazer tudo o que estiver ao
meu alcance para ajudá-lo”. Conversei com meu marido e ele concordou comigo que
deveríamos mudar nossa postura em relação a tudo.
Assim, começamos a ler
tudo o que podíamos sobre o autismo e a nos educar. Ao mesmo tempo, com a ajuda
de familiares e amigos, providenciamos nossa mudança de volta para São Paulo,
onde há mais recursos para tratamento do Nicholas e, também para conseguir
trabalho.
Quanto mais eu
descubro coisas novas sobre o autismo, mais eu me impressiono positivamente e,
mais eu percebo o quanto eu estava errada no começo de tudo e, o mais
importante: a informação é imprescindível para erradicar o preconceito sobre o
autismo! Percebo que esse preconceito existe até mesmo nos lugares e entre
pessoas que deveriam ser as mais informadas sobre esse assunto --que diz respeito aos médicos, pediatras,
neuropediatras, e todos os envolvidos na área da saúde. Isso é preocupante, mas
também é uma missão, cabida à todos nós, pais de crianças autistas.
Ao pesquisar sobre o
autismo na internet, descobri ações maravilhosas de pais de crianças autistas,
como o blog da Andrea, o Lagarta vira Pupa, e de autistas, como Carly
Fleishmann. Essas pessoas me ajudam, sem nem mesmo se dar conta disso, na minha
jornada, para compreender o mundo de meu filho para, então, ajudá-lo a
compreender o meu.
Hoje, não sinto pena
de mim mesma, nem de meu filho. Sinto que ambos vamos aprender muito um com o
outro. O Nicholas, com apenas 3 anos de idade e falando menos de dez
palavrinhas, incapaz de formar frases, já me ensinou muitas coisas importantes:
a ser paciente, tolerante, compreensiva, interessada, altruísta, e, acima de
tudo, que o mais importante nessa vida é o amor incondicional.
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