O amor pela natureza
me ajudou a escolher minha profissão: Hoje, sou bióloga. Apesar de não poder
atuar na minha área, nesse momento de minha vida, lembro-me bem da sensação de
estar diante de algo desconhecido e misterioso: no início, um friozinho na
barriga, como se estivesse andando de montanha-russa, pela primeira vez, antes
da primeira descida em alta velocidade. Depois, sentia uma grande admiração
pelo o que estava estudando, pois estava descobrindo coisas que nem imaginava
serem possíveis! E isso nunca tem fim, porque quanto mais estudamos, mais
descobrimos que o que sabemos é muito pouco e, isso, só alimenta o anseio pelo
saber.
Mas em relação ao
autismo, senti um medo diferente, como se estivesse de frente para um tigre faminto. Sentia que
seria consumida pelo medo. Então, quando
comecei a pesquisar sobre o assunto, o medo foi passando e meu anseio
por novas descobertas foi aumentando. A impressão que tenho hoje, é a de que a
primeira reação do ser humano “normal” diante de algo que ele não conhece, é a
de negação. Um bom exemplo disso, é o tema da inteligência de outros animais
não-humanos: como as pessoas não compreendem a liguagem e as diferentes formas
de comunicação dos outros animais, elas simplesmente acham que não existe outra
forma de vida inteligente a não ser a humana.
Nesse momento, quero
deixar bem claro que não estou dizendo que as pessoas com autismo são animais,
de forma pejorativa: todos nós somos parte do Reino Animal. O que quero dizer,
é que da mesma maneira que os “seres humanos inteligentes e normais” negam a
inteligência de animais não-humanos, eles negam que pessoas autistas sejam
inteligentes. O autismo ainda é um tabu, pelo menos aqui no Brasil.
A meu ver, com o pouco
que aprendi em menos de um ano, estudando sobre o autismo, acho que os autistas
não são menos inteligentes, de forma alguma: são, na verdade, incompreendidos. Conheci,
por intermédio de minha mãe, a história de uma menina canadense chamada Carly
Fleishmann. Desde muito cedo ela foi diagnosticada autista com retardo mental
severo. Todos falavam na frente dela, como se ela nem estivesse ali, como se
não entendesse nada. O caso de Carly, segundo os médicos, era perdido.
O que mais me
impressiona, é me deparar com atitudes preconceituosas dentro de um consultório
de neuropsiquiatria. “ O autismo é um estigma que a pessoa carrega para a vida
toda” foi o que escutei de uma neuropediatra que trabalha em uma clínica
renomada. Estigma? Como assim?
Segundo o dicionário Houaiss, "estigma" é aquilo que é considerado desonroso, indigno, labéu - e tem como exemplo:" a doença mental nao é mais considerada um estigma".
Apesar dessa
neuropediatra nem ao menos examinar meu filho, ela disse que deveríamos
descartar outras possibilidades de doenças que provocam comportamento
autístico, como a Síndrome Inata do Metabolismo. Existem mais de 500 tipos
dessa síndrome e ela consiste no seguinte: durante a formação do embrião,
ocorre um defeito na ligação de uma determinada proteína na cadeia do DNA. Essa
ligação “errada” , dependendo do tipo, faz com que a pessoa fique incapaz de
metabolizar certos nutrientes e, ainda existe o tipo que impossibilita o
lisossomo (uma organela que...) .Como resultado, o organismo se auto-intoxica,
causando, dentre outros sintomas, retardo mental, involução do desenvolvimento
e comportamento autístico.
Ela disse que na
melhor das hipóteses, meu filho tem Asperger. Sinceramente, odiei essa consulta
e, estou muito preocupada em fazer a batelada de exames que ela pediu e nosso
plano de saúde não cobre (os exames de Sindrome Inata do Metabolismo e exames
de pesquisa genética). Achei interessante escrever sobre isso, porque essa
neuropediatra, apesar de insensível e não ter
o menor tato em tratar seus
pacientes, é conhecida por ser muito competente. E o fato dela me dizer que
existem inúmeros diagnósticos de autismo que, na verdade são casos de Síndrome
Inata do Metabolismo me chamou a atenção.
Meu próximo texto será
dedicado apenas sobre essa síndrome. Em muitos casos, só para se ter uma ideia,
uma dieta restritiva rigorosa cura o problema. Então, acho muito interessante
escrever um texto apenas sobre esse tema, uma vez que poderá ajudar pessoas
erroneamente diagnosticadas como autistas.
No caso do Nicholas,
meu filho, por enquanto estamos o
tratando como um autista atípico, seguindo conselhos de sua psicóloga.